GIRO DA NOTÍCIA

EMISSORAS IGNORAM DIVERSIDADE RACIAL E LANÇAM NOVELA COM 90% DO ELENCO BRANCO.

#Novelas do horário nobre ignoram diversidade racial do país.


A cena é da vida real e se passa em 1986. Quem a descreve é Reynaldo Maximiano Pereira, um menino negro então com 9 anos. É ele quem se identifica com o capitão do mato, personagem vivido por Tony Tornado em Sinhá Moça, folhetim de Benedito Ruy Barbosa exibido às 18 horas pela Globo naquele ano. Os diálogos se inserem no contexto de uma brincadeira de faz de conta típica da infância. Reunidas numa rua do bairro Renascença, as crianças do grupo escolhiam um herói para encarnar naquele momento de lazer.

"O Super Homem era branco, o Batman era branco, o Homem Aranha, também. Não tive acesso a nenhum herói negro. A referência que primeiro me veio à cabeça foi essa". Reynaldo Maximiano Pereira, hoje doutor em Comunicação Social pela UFMG e pesquisador de telenovelas.

Representatividade e seus impactos sociais eram, por certo, discussões ignoradas pelo roteiro da novela protagonizada por Lucélia Santos e Marcos Paulo (1951-2012). Ambientada em 1886, dois anos antes da abolição da escravatura no Brasil, Sinhá Moça faz da filha branca de um coronel escravocrata do interior paulista (vivido por Rubens Falco) uma espécie de líder inspiradora de escravos, que os guia rumo à libertação. O elenco negro é 100% restrito aos papéis secundários, com grande concentração nas senzalas. Grande parte sequer recebeu nome.

Longe de causar desconforto, a narrativa que ofereceu um capataz encarregado de caçar e surrar pessoas de sua mesma etnia como melhor projeção identitária a um garoto de 9 anos foi um estrondoso sucesso. Vendida para 113 países, Sinhá Moça é a terceira novela mais exportada da Globo. Em 2006, ganhou remake estrelado por Débora Falabella e Danton Mello. E, mesmo em tempos em que as vozes da negritude soam potentes como raramente antes, a obra de Benedito Ruy Barbosa segue com boa recepção na grade de horários do canal Viva.

"A gente ainda se depara com muito roteiro cujos diálogos vêm assim: 'Princesa Carla e empregado negro'. Vem escrito 'empregado negro' no script. Ele não tem nome. O ator negro ainda ocupa muito o lugar do serviçal. E isso, para muitos roteiristas de novela e do cinema é natural. Afinal, eles se casaram com pessoas brancas, não convivem com amigos negros, não têm um cunhado negro. Preto não faz parte do escopo do príncipe da vida real. E o pior é que a nova geração, que está fazendo séries, está indo pelo mesmo caminho. Tem série que não tem um preto". Elisa Lucinda, atriz.

Lucinda é uma das adeptas da campanha “Eu poderia estar na novela O Segundo sol”. Iniciada nas redes sociais, a ação se contrapõe ao argumento de que a emissora ficou sem opções para seu elenco uma vez que Taís Araújo e Camila Pitanga decidiram não aceitar o convite para integrá-lo. “Eu poderia estar na novela Segundo sol” lista ao menos 53 atores negros como sugestão para compor casting da novela, entre eles Sheron Menezes, Ailton Graça, Ana Carbati, André Luiz Miranda, Zezeh Barbosa, Cris Viana e Sérgio Menezes.

No WhatsApp, a polêmica também anda quente. Circula pelo aplicativo um vídeo irônico, que compara a escalação de atores majoritariamente brancos para uma trama das 21h ambientada na Bahia com a seleção quase exclusivamente de artistas negros para a encenação de uma história cujo cenário fossem os redutos de imigração alemã no Sul do país.


"Estamos chegando numa hora que eu chamo de 'hora furuncular'. Espreme-se o carnegão. Encheu. A gente não aguenta mais. Apesar do racismo estrutural que ainda nos limita muito, Lucélia Santos, hoje, já não estrearia Sinhá Moça incólume em rede nacional. Também não faria Escrava Isaura (Gilberto Braga, 1976) com a mesma tranquilidade. As políticas de inclusão fizeram surgir uma periferia vai para a universidade e que já está começando a aparecer na sociedade e criando movimentos coletivos que reivindica espaço, analisa a atriz.

Lucinda é uma das adeptas da campanha “Eu poderia estar na novela O Segundo sol”. Iniciada nas redes sociais, a ação se contrapõe ao argumento de que a emissora ficou sem opções para seu elenco uma vez que Taís Araújo e Camila Pitanga decidiram não aceitar o convite para integrá-lo. “Eu poderia estar na novela Segundo sol” lista ao menos 53 atores negros como sugestão para compor casting da novela, entre eles Sheron Menezes, Ailton Graça, Ana Carbati, André Luiz Miranda, Zezeh Barbosa, Cris Viana e Sérgio Menezes.

No WhatsApp, a polêmica também anda quente. Circula pelo aplicativo um vídeo irônico, que compara a escalação de atores majoritariamente brancos para uma trama das 21h ambientada na Bahia com a seleção quase exclusivamente de artistas negros para a encenação de uma história cujo cenário fossem os redutos de imigração alemã no Sul do país.

"Estamos chegando numa hora que eu chamo de 'hora furuncular'. Espreme-se o carnegão. Encheu. A gente não aguenta mais. Apesar do racismo estrutural que ainda nos limita muito, Lucélia Santos, hoje, já não estrearia Sinhá Moça incólume em rede nacional. Também não faria Escrava Isaura (Gilberto Braga, 1976) com a mesma tranquilidade. As políticas de inclusão fizeram surgir uma periferia vai para a universidade e que já está começando a aparecer na sociedade e criando movimentos coletivos que reivindica espaço, analisa a atriz.

Novelas da Globo ignoram diversidade racial do Brasil

Nenhum comentário